HISTÓRIAS DO COTIDIANO EM MEDICINA
São situações, crônicas, contos, manifestações de pacientes, histórias pitorescas, perguntas todas verídicas, hilárias, divertidas.

Certa vez, ao assistir clinicamente uma senhora de meia idade, em tratamento clínico-hospitalar por gastroenterite aguda e desidratação hidro-eletrolítica, vivi uma situação inédita.

Como é meu hábito, sempre comunico a alta com 24h de antecedência. A referida paciente, agora totalmente curada e estabilizada, foi comunicada que no dia seguinte teria alta hospitalar.

Para surpresa, no dia seguinte, ao chegar no quarto encontrei-o, fechado, desocupado.

Dirijo-me ao posto de enfermagem e pergunto:

- Onde está a fulana de tal? - perguntei eu.
A enfermeira, responde: - Não o avisaram? Ela faleceu!
- Mas como? - disse eu.
- Morreu Doutor - reafirma a enfermeira - Ela levantou, foi ao banheiro e partiu!
- Para onde partiu? - aturdido, voltei a perguntar.
- Para o necrotério, Doutor, para onde mais poderia ir ? - com ar irônico ratifica a enfermeira.
- Para casa, ela teria alta hoje. - disse eu.
- É Doutor, mas ela teve outra decisão e partiu - ratifica a enfermeira.

Frente aquele diálogo irreal, desconsertado, em mescla de risos, desapontamento, tristeza, surpresa... não sabia o que pensar ou como agir. A paciente foi a necropsia e constatado que teria falecido por embolia pulmonar, com insuficiência respiratória aguda, nada relacionável com o motivo da internação.

CONCLUSÃO: Para morrer basta estar vivo e a morte não age como os humano, ou os médicos, não avisa na véspera.

FRASES HILÁRIAS DO QUOTIDIANO DA MEDICINA:
Quando iniciei minha profissão, já trabalhando no Posto de Saúde da Cohab Tablada, nos idos de 1978 atendia todas as frentes (pediatria, clinica geral, pré-natal, ginecologia...). Era uma “diversão”, um prato cheio, cardápio variado. Vejamos algumas frases e situações vividas nas consultas:
- Doutor, estou com dor aqui no “vazio”. - apontando para a barriga, gesticulava o paciente.
Eu, em sorriso contido pergunto: – Como pode doer o vazio?
- Olha Doutor, doendo, doendo... - responde o paciente.

(E aí o que fazer numa situação destas, quando dói o vazio?)

- Doutor, trouxe o Joãozinho para consultar. Passou a noite contorcendo-se de dores na barriga. Parecia que iria virar num anzol.
Eu, em risos pergunto: - A senhora gosta de pescaria?
(Segue-se silêncio total)
 

- Doutor, vim aqui para consultar e ver o que tenho. Eu acho que é o “figo”. Não adianta pensar em outra coisa. O meu “figo”dói. O meu “figo” incha. Só pode ser ele que tá doente. O que o Senhor acha?
Eu sério, digo: - Se a senhora afirma, sem dúvidas, que é o “figo”, por que então vem aqui consultar? Mas quero dizer que eu acho outra coisa. E relativo ao “figo”, eu gosto dele em calda.
(Mais uma vez segue o silêncio)

- Doutor eu tenho unha encravada há anos. Já fiz de tudo. Coloquei gasolina, querosene, esterco de galinha, já urinei nela e nada de desencravar. Fiz tudo, tudo... O que o senhor acha?
- Já consultastes um médico? – perguntei.
- Não, mas estou procurando um bom, o senhor conhece algum?

 

- Doutor, eu vim aqui porque estou muito preocupado. Acho que vou morrer. Tenho uma dúvida que está me deixando quase louco. O senhor vai me dar o atestado de óbito, se isto acontecer? - perguntou o paciente muito agitado e inquieto.
Vendo tamanha inquietude, disse: - Sim...
Antes que concluísse a frase o paciente levantou-se e saiu em risos, feliz da vida.
Eu, atordoado, perguntei para minha secretária:
– Este senhor que saiu, qual a situação dele?
– Um paciente particular como outro. Pagou a consulta normalmente. Por quê?
- Nada. Nada. - exclamei eu, pensando: “tem cada loucura que nem imaginamos possível.”

 
Uma situação vivida na faculdade, ainda aluno.
Lá estava eu no 3º ano, no ambulatório geral. Era meu primeiro paciente, meu primeiro dia no ambulatório de clínica.
Entrou o primeiro paciente da minha vida. Revestido de todo entusiasmo, preocupações e muita ansiedade cheio de motivações.
- O que há com o senhor? – perguntei.
- Doutor, eu tenho Doença de Kirschprung. O que tenho que fazer?
SILÊNCIO
Pensei - O que é isto, meu Deus, nunca ouvi falar nisto.
Empalideci, estonteei...
- Tenho cura, Doutor?
Sem ação, disse para o paciente: - Só um pouco, vou trazer-lhe um remédio.
Saí do box de consultas. Na verdade não fui buscar remédio algum, e sim procurar um professor para socorrer-me e dar-me um remédio, para amenizar minha ignorância.
Superado aquele primeiro confronto, fiquei sabendo que tal paciente já era “famoso” no ambulatório. Costumava ir a biblioteca da Faculdade de Medicina para instruir-se e vir “aplicar nos alunos iniciantes a sua injeção de choque”.
Incrível, não é! Inesquecível. Hoje passaram-se quase 35 anos, e tal passagem está fresca na minha memória. Que susto!
Situação vivida no consultório.
Entrou um paciente. Baixinho, cabisbaixo, introspectivo. Parecia um pintinho recém saído da casca. Acabrunhado, desajeitado...
Pedi que entrasse e sentasse na cadeira.
Muito timidamente, quase um murmúrio - A minha esposa pode entrar junto?
– Sim. - respondi.
Entrou ela, mais duas pessoas. Dito pela esposa que eram seus pais. Enfim, entraram os quatro: o paciente, a esposa, o sogro a sogra.
Para dar início a consulta, dirijo-me ao paciente: - Sr. João (nome fictício), o que há com o senhor?
SILÊNCIO
Repito. - Sr. João, o que o trás aqui?
O SILÊNCIO, PERSISTE
Mais uma vez. - Sr. João, o que o aflige?
SILÊNCIO, AINDA MAIOR.
Frente ao silêncio, a esposa toma o diálogo:
- Doutor o problema é que este homem é um “frouxo”, não faz nada. Nada. Nada. Doutor. - Diz a esposa.
- Como assim? – pergunto.
- Nada. Nadinha. Doutor. Ele não dá em nada.
- Mas como? Não entendi. - Disse eu
- Ele, doutor, não faz nada! - diz o sogro
- É, não faz nada, Doutor - diz a sogra, ambos quase em coro
- Ele não quer saber de mulher. Casou com nossa filha há um ano e até agora, nada. Ela continua virgem, Doutor, ela está subindo as paredes. E ele, nada.
Entendendo a situação, olhei para o Sr. João. Ele, pequenino em cima da cadeira, parecia um grão de arroz mofado. Que situação, pensei eu. Fiquei imaginando o convívio na casa dele. Que situação. O que fazer?
Pergunto: - E aí Sr. João, o que o Sr. me diz?
- Nada. - responde ele.
- Como assim? - retruco eu
- Nada Doutor. O que eu quero é sumir.
(Pensei eu, quem sabe sumimos juntos)
PERGUNTAS (VERÍDICAS) MUITO “INTELIGENTES”
- Doutor vou hospitalizar amanhã. Entro por onde?
- Pela porta. – respondo.
 
Três dias após a consulta médica e respectiva prescrição, o paciente telefona para dar noticias e pergunta:
- Doutor, o senhor deu-me um remédio compridinho, com o nome na caixa de supositórios, o que eu faço com ele?
(que vontade de dar aquela resposta)
Paciente em pós-operatório de cirurgia com retirada de dois sinais (nevus) no rosto. Trinta dias após, telefona para perguntar:
- Doutor, quando poderei tomar banho?
- Doutor o que é menopeusa?
- Doutor, estou com uma coceira na “perseguida”, que quase tiro os pedaços. O que faço? Posso lavar com vinagre?
(observação: ”perseguida” é sinônimo de genitália feminina)

- Doutor, caí e torci o pé. Deixei de molho na água com vinagre e sal. O senhor acha quer fiz bem?
(Resposta: - Se fosse eu teria colocado sal e o vinagre na salada)

No pós-operatório, o paciente pergunta:
- E ai Doutor tinha muita porcaria na minha barriga?
Eu respondo brincando: – É, tinha Bombril usado, tampa de panela, cabo de vassoura...
O paciente assustado arregala os olhos de uma maneira que parecia que olhos iriam saltar das órbitas e perguntou sério e pálido de susto:
- Mas Doutor, como é que eu não morri?
Paciente ansioso e poli-queixoso ao concluir a consulta recebe a prescrição. De posse da receita o paciente pergunta:
- E agora Doutor, o que faço com este papel?
 
Certa ocasião uma paciente veio a consulta com uma caixa de papelão com um volume de mais ou menos uma mochila repleta de exames (radiografias, analises clínicas, ultrassom...) desde há 15 anos atrás. As queixas eram inúmeras, manifestando dores em tudo. O que era perguntado a resposta era sempre positiva. A consulta transcorreu por quase uma hora.
A paciente pergunta:
- Doutor está com tempo hoje, não é?
A sala de espera cheia de pacientes, com pessoas até na calçada. Por fim vem a pergunta derradeira:
- Doutor, o senhor quer olhar estes exames?
Abrindo a caixa. Eu quase infartei!!!
 
Uma senhora vem com o relato de vômitos persistentes e escuros. Pergunta:
- Doutor isto que estou vomitando não são pedaços do meu fígado?
Um senhor com lesão cutânea herpética intercostal (popularmente conhecido como “cobreiro”) vem a consulta muito preocupado e revestido de muitas fantasias, e pergunta com muita inquietude:
- Doutor, é verdade que estas lesões quando se juntam na frente, a gente morre?
Certo paciente, após ter consultado com o oftalmologista e com prescrição de óculos com lentes de contato, vem ao meu consultório e pergunta:
- Doutor, posso fazer este mesmo óculos para a minha esposa?
- Não, os óculos e as prescrições de lentes são individuais e específicas, não servem para outra pessoa. - respondo eu.
- Engraçado, Doutor, mas a minha chapa (prótese dentária), a minha esposa usa a mesma quando precisa!

 

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